Foto sem data
Entardecer no Rio de Janeiro, imagem de Roberto Gomes, do grupo de fotografos "Art Sette', na mostra "Edição Um", na Galeria G, Rio de Janeiro, 2008.
A Lição de Anatomia do Temível Dr. Louison (Casa da Palavra/LeYa), primeiro volume da série de literatura fantástica Brasiliana Steampunk, foi publicado em agosto de 2014, duas semanas depois da II SteamCon. Maior evento do gênero no Brasil e organizado por Adriana Cabral e pelos fundadores do Conselho Steampunk, Bruno Accioly e Raul Cândido, o encontro na vila ferroviária em Paranapiacaba (SP) me apresentou a outro mundo. Eu que conhecia esse subgênero da ficção científica de leituras bem comportadas e domésticas, vivenciei naquele encontro de entusiastas, artistas e fãs, uma realidade mágica, para não dizer, retrofuturista!

Nela, exploradores terrestres conviviam com aventureiros urbanos, assassinas audaciosas conversavam com grupos de autômatos antiquados e modernosos, e curiosos trocavam impressões com visitantes ocasionais, que gostariam de saber se aquilo era “sério” ou simplesmente uma reunião de lunáticos. Eu, que adoro insanidades imaginativas, torci que fosse mais o segundo caso. O resultado daquele evento para este formal professor de literatura clássica? Eu fui fisgado de imediato. E duas semanas mais tarde, lá estavam meus novos amigos e parceiros me auxiliando no lançamento do livro na Bienal de São Paulo.

Vivenciar a SteamCon reforçou em mim o desejo de transformar Brasiliana Steampunk num projeto transmídia, num conjunto de artefatos e produtos que possibilitaria aos leitores adentrar naquele mundo de forma mais intensa, como estamos acostumados a fazer com a cultura estrangeira e seus múltiplos universos ficcionais, que vão desde os mundos da DC e da Marvel até as terras imaginárias de O Senhor dos Anéis e Guerra dos Tronos, desde os planetas distantes de Star Wars e Strar Trek até a Nova Orleans de Anne Rice ou a Hogwarts de Rowling. Mas por que não no Brasil? Por que não em São Paulo, Rio de Janeiro ou Porto Alegre?

Neste aspecto, pensar a série como narrativa transmídia me daria um suporte visual adequado para representar esse mundo sul-americano e brasileiro, tupiniquim em essência. Neste aspecto, destaco dois mestres da literatura fantástica que são verdadeiros pioneiros dessas ações no Brasil: Christopher Kastensmidt e a sua Bandeira do Elefante e da Arara e Affonso Solano e o seu Espadachim de Carvão. Neles, vejo esforços direcionados para games, desenhos animados, jogos digitais e analógicos, até uma ópera rock que está sendo produzida pelo último em parceria com os músicos do Marmor. Eu não poderia alçar voos tão altos, mas tentaria, contando também com o apoio dos dois. O primeiro, um grande amigo aqui do sul. O segundo, meu próprio editor na Casa da Palavra. E o que trago na sequência é um relato do que já foi feito com Brasiliana Steampunk enquanto projeto transmidiático.

Primeiramente, precisaríamos de um site oficial expansível e gratuito, que ofertasse aos leitores acesso ao mundo de Brasiliana Steampunk e que detalhasse seus principais personagens. Fizemos isso em parceria com a dotweb e seu criador, Bruno Accioly – o mesmo citado ali em cima e que voltará a aparecer neste texto –, construindo uma página que fosse visualmente agradável e dinâmica, com fichas de personagens, mapas de cenário, galeria de artes, ilustrações para colorir, contos inéditos e um tarô exclusivo, além de um Noitário Criativo que detalha aos interessados a concepção do primeiro romance, desde o primeiro esboço até a composição da capa, em parceria com Solano e Rodney Buchemi. Para dar uma conferida no site, acessem www.brasilianasteampunk.com.br.

Para empreender algo assim, foi fundamental a presença de ilustradores que trabalhassem para criar visualmente o que eu apenas imaginava. Destes, destaco Jessica Lang, Karl Felippe, Marcus Lorenzet, Diego Cunha, Poliane Gicele e muitos outros. Obviamente, esses artistas não trabalham de graça – e nem deveriam – o que me faz reservar mensalmente uma verba específica do orçamento para esses projetos. Falando em projetos culturais, não há outra saída: você precisa investir muito tempo e muito dinheiro para ver o retorno, e este não chega de forma imediata. E eu sabia disso. Porém, comecei a perceber que me faltava alguma orientação para ações efetivas na área de economia criativa, indústria cultural, empreendedorismo digital, voltado para o meu público específico: jovens, jovens adultos, geeks, nerds e outros tantos.

brasiliana-steampunk-produtosNeste aspecto, integrar o Grupo EPIC foi fundamental. Trata-se da união de vários artistas e empreendedores que me auxiliaram a desenvolver produtos mais direcionados, de alcance mercadológico melhor planejado. Com eles, por exemplo, a dimensão transmídia da série deu um salto quali e quantitativo. Um dos principais exemplos é o book trailer criado pelo animador 2D Killerjabuti, que apresentou olivro a uma audiência totalmente nova. Foi também com eles que criamos uma série de produtos para a loja virtual Epic Art, que incluem canecas, camisetas, pôsteres e cartões postais, além de bustos colecionáveis, criados pelo grande Felipe Kling David, do portal Mundo Gump. Como tenho visitado muitas escolas e institutos de ensino, neles também encontro parceiros para discutir a economia criativa em nosso país e seu impacto em empresas e lares. Todos os projetos que descrevo abaixo têm a participação deles, tanto na execução quanto no planejamento e abordagem.

Em termos literários, há contos inéditos que foram publicados e que expandem e detalham a linha temporal da série, que compreende mais de trinta anos, desde a fundação do Parthenon Místico – a minha Liga Extraordinária brasileira – até os eventos mostrados em Lição de Anatomia, que se passa em 1911. Estamos lançando na Amazon o Brasiliana Steampunk Contos, série de narrativas curtas protagonizadas por diferentes heróis de Porto Alegre dos Amantes. Esses contos têm apresentação de outros escritores, posfácio meu, ilustrações de Karl Felippe e capas de Poliane Gicele. De forma gratuita, há contos em antologias e também a noveleta publicada no número 11 da revista de ficção científica e fantasia Trasgo, “Solfieri & A Estalagem dos Enforcados”. Além de servir de ótima introdução a novos leitores, também temos aqui ilustrações da mesma dupla de artistas.

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No que diz respeito a produtos inovadores no mercado nacional, estamos investindo muito nas mídias sonoras, consumidas em dispositivos móveis. Sempre digo que Porto Alegre está para mim e para meus heróis marginais e soturnos como Nova Orleans está para Anne Rice e seus vampiros e bruxas. Aos que desejarem conhecer mais desse cenário, fizemos em parceria com o Sarjeta RPG um áudio drama gratuito com produção de Ramon Mineiro chamado “Passeio Turístico por Porto Alegre dos Amantes, com Vitória Acauã” (http://goo.gl/7cnA6y). Junto com o podcast Caixa de Histórias e com a Tocalivros estamos produzindo o audiolivro de Lição de Anatomia. Neste quesito, destaco os amigos Paulo Carvalho, Beatriz Mazarak e Joy Japy, que estão dando vida com suas vozes aos heróis de Brasiliana Steampunk.

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O penúltimo projeto que destaco é o Suplemento Escolar para Professores e Alunos de Ensino Médio. Em nossa literatura, há muita coisa boa e instigante e penso que chegou a hora de enfrentarmos a resistência que todos temos à nossa cultura. Por que não começar na sala de aula? Pensando nisso, criamos um suplemento, escrito em parceria com professores e educadores, com visual delicioso que lembra os quadrinhos dos X-Men ou da Liga da Justiça, referências pop que alunos e professores irão reconhecer. Nele, detalhamos detalhadas as origens literárias da série e apresentamos alguns de suas curiosidades, além de sugerir temas para debates e atividades criativas que objetivam engajar jovens e adultos.

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Por fim destaco dois movimentos em direção a jogos analógicos. Um dos produtos mais legais é o cardgame Cartas a Vapor, feito em parceria com a Potato Cat, empresa paulistana de jogos coordenada por Kevin Talarico e Samanta Geraldini. O jogo conta com artes digitais produzidas por Bruno Accioly – eu disse que ele voltaria a aparecer. Ele será produzido via financiamento coletivo e lançado na Comic Con Experience de 2016. Trata-se de um jogo com mais de duzentas cartas que detalhará o universo com um grande elenco de personagens, cenários e ferramentas, além de servir de ponte entre Lição de Anatomia e o segundo volume da série, O Parthenon Místico, que será lançado em 2017. Ainda no mundo dos jogos, teremos o suplemento de RPG que sairá pela New Order para The Strange, jogo criado pelos mestres Bruce Cordell e Monte Cook. Com a Recursão Retrofuturista os jogadores poderão criar heróis e situar aventuras no universo da série, em qualquer cidade do Brasil. Além disso, terão a oportunidade de visitar Porto Alegre dos Amantes e jogar com seus heróis e vilões.

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Pensando no leitor ou consumidor, o que desejamos produzir é uma experiência multimidiática que produza diversão e imersão. Tem sido uma aventura de dois anos, que apresenta momentos de conflito, cansaço e desânimo, como toda a grande empreitada envolvendo muitas pessoas. Por outro lado, os resultados já são bem palpáveis, não apenas no sucesso do primeiro livro nas livrarias como também na recepção dos leitores nas redes sociais e nos eventos que eu tenho participado.

Quando desci em Paranapiaca naquela sexta-feira de 15 de agosto de 2014, ao lado de Bruno Accioly, Raul Cândido e Adriana Cabral, mal sabia eu que iria ganhar novos amigos e parceiros tão apaixonados quanto eu na execução de todas essas loucuras. Aos que não conhecem o gênero steampunk e a SteamCon, fica o convite para um dos finais de semana mais mágicos que vocês poderão ter neste ano: nos dias 6 e 7 de agosto, os zepelins pousarão, os trens chegarão em seus destinos e submarinos e subterrestres emergirão na paisagem acidentada e nostálgica da interiorana vila ferroviária de São Paulo. Já comprou seu tíquete e preparou os goggles e armas para essa jornada? Eu, já.

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